segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Cântico negro

José Régio
Cântico negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Lembrei que certas coisas não podem ser lembradas...

LEMBREI
(Mauricio Baia / Gabriel Moura)

Lembrei de me esquecer a tempo
Perdi meus maiores achados
Odiei por amor
Utilizei coisas inúteis
Paguei caro por prazeres baratos

Lembrei de me esquecer a tempo
Perdi meus maiores achados
Odiei por amor
Utilizei coisas inúteis
Paguei caro por prazeres baratos

Desafiei a lâmina afiada
Enterrei um sapo no terreiro
Quis não ter querer
Tentei não cair em tentação
Mas livrei-me dos livros
Pois eles não me livraram

Lembrei de me esquecer a tempo
Perdi meus maiores achados
Odiei por amor
Utilizei coisas inúteis
Paguei caro por prazeres baratos

Desafiei a lâmina afiada
Enterrei um sapo no terreiro
Quis não ter querer
Tentei não cair em tentação
Mas livrei-me dos livros
Pois eles não me livraram


Desafiei a lâmina afiada
Enterrei um sapo no terreiro
Quis não ter querer
Tentei não cair em tentação
Livrei-me dos livros
Pois eles

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sorte de hoje:

Você não pode planejar o futuro pensando no passado

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Problemas de linguagens ato ou ação de problemáticas envolvendo a língua, problemas na comunicação.

-"Todo problema filosófico é um problema de linguagem..."
-"..."
-"Por isso, só se filosofa plenamente em alemão ou em grego..."
-"..."
-"Por isso, há tantos idiotas aqui essa sublingua..."
-"..."
-"E por isso que nunca conseguiremos entrar em um consenso."
-"..."
-"Fale alguma coisa!"
-"Oinc."

"Vai... vai... vai..." II

-"Vai..."
-"Deixa eu ficar contigo..."
-"Não, por favor... Vai..."
-"Quer mesmo que eu vá?"
-"Quero"
-"Tá bom. Adeus"

Craudio saiu inconsolável daquela conversa com Waldysneya. Parou com as mãos postas sobre os joelhos no meio da rua, pensando em como seria sua vida agora que perdera tudo que tanto almejava. Levantou a cabeça que pendia m pouco com todo aquele turbilhão de sentimentos contraditórios.

Chega em casa, toma um banho e deita contemplativo. Parecia que tinha voltado a adolescência. O telefone toca. Waldysneya:
-"oi.."
-"..."
-"Tais bem?"
-"..."
-"Tu não vai falar nada? Então tá, espero que tu fique bem e que a vida lhe reserve algo tão especial quanto você..."
-"..."
-"Adeus."

-"Wal!"
-"Oi."
-"... nada... deixa pra lá.."
-"Fala..."
-"..."
...

-"Vou desligar então..."

...

-"..."

...

-"Te amo."

Tu tu tu tu tu tu tu


Waldysneya se casou com um cartunista estadunidense, e viveu até a morte no paraíso que ele lhe criou.

Craudio morreu poucos meses depois. Diagnóstico: Câncer!
Segundo o médico ele não deveria ser uma pessoa tão reservada... Craudio morreu sem dar uma palavra.


Waldysneya desenhou uma personagem de nome:

- "Boboca."
-"Qual a característica mais marcante dessa nova personagem Senhora Waldysneya?"
-"Humor mudo..."

Waldysneya não lembra muito bem de tudo o que disseram ou do que fizeram durante o tempo que estiveram juntos, mas nunca esqueceu o silêncio de Craudio...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Meu olhar

Alberto Caeiro
II - O Meu Olhar
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

domingo, 11 de outubro de 2009

"Vai... vai... vai..."

E eu fui...